quarta-feira, 20 de maio de 2009

Solitário é bom partido para MPEs

Público formado por jovens sem filhos, divorciados e viúvos é aposta de lucro

Poucos provavelmente vão se lembrar de que amanhã, 15 de agosto, é o Dia dos Solteiros. Mas, certamente, há um grupo de pessoas que não se esquece em momento algum dos que vivem sozinhos: o dos empresários que investem em produtos e serviços para o segmento, que tem projeções de crescimento em quase todos os países, inclusive no Brasil.
Por aqui, a clientela potencial vem crescendo progressivamente, segundo consultores ouvidos pela Folha. São mulheres que ingressam no mercado de trabalho e adiam os planos de ter uma família para firmar-se profissionalmente, jovens que se separam dos pais para morar perto da universidade, descasados e solteiros que descartam a vida a dois. Se eles estão sozinhos em casa, não foram abandonados pelas empresas de serviços, pelas indústrias nem pelo segmento de varejo.
"O segmento "single" tende a crescer ainda mais. As pessoas estão casando tarde e os relacionamentos têm sido menos duradouros", prevê o professor de comportamento do consumidor da FGV-RJ (Fundação Getulio Vargas) Eduardo Ayrosa.
Ayrosa destaca que alguns empresários ainda não perceberam que o compromisso com os solteiros é vantajoso. "Há espaço para o serviço de pequenos reparos de roupas, manicures que atendem em domicílio e comidas semiprontas", enumera. "O consumidor não quer se programar e planejar todos os cardápios da semana. A indústria alimentícia pode crescer oferecendo mais opções para os solteiros."
O coordenador do departamento de economia da Abia (Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação), Denis Ribeiro, não demonstra tanto otimismo e vê com cautela os investimentos específicos em produtos voltados a esse consumidor. Ele estima o mercado potencial em 700 mil no Brasil. "Esse é um segmento com chance de crescimento, mas está atrelado ao aumento da renda do consumidor", argumenta.
Produtos à vista
Há quatro anos, a Sakura inovou ao criar uma linha de molhos prontos para saladas em recipientes menores. Passou, depois, para temperos preparados e para sopas do tipo instantâneo.
"O segmento representa hoje 12% do faturamento da empresa e vem crescendo a taxas de 20% ao ano", assinala Roberto Ohara, diretor de desenvolvimento e de novos produtos da Sakura.
"Realizamos estudos para ampliar a oferta de produtos e devemos lançar mais algumas novidades até o primeiro semestre do ano que vem", complementa. Segundo ele, a concorrência acordou para o mercado "single": "As empresas estão mais agressivas nos últimos anos".
Não são só as indústrias de alimentação que lucram com o segmento dos solitários. Agências de turismo, bares e lavanderias são outros exemplos de negócios que estão flertando com esse público.
Perfis diferentes
De acordo com o coordenador de cursos e pesquisas do Provar/ FIA (Programa de Administração de Varejo da Fundação Instituto de Administração), Luiz Paulo Lopes Fávero, há outras brechas para a criação de mais serviços, como delivery para farmácias, supermercados 24 horas e lojas de materiais de construção no estilo "faça você mesmo".
O único porém é a escolha do negócio e a sua localização. "Existem dois subgrupos no mercado "single': o das pessoas jovens e o da terceira idade. Apesar de morarem sozinhos, seus hábitos de consumo são diferentes", diz.
De acordo com ele, a forma de conquistá-los é diferente. "Os de menor faixa etária são mais fiéis a bens duráveis, como aparelhos de som, e semiduráveis, a exemplo das roupas. Os idosos preocupam-se principalmente com o preço e com a comodidade."
Empresários mudam o foco para atrair clientes
Há cinco anos, o empresário José Roberto dos Santos criou o site Amigos & Cia. Voltado a relacionamentos, cobrava taxa de inscrição para que o solitário encontrasse seu par perfeito. A internet era apenas uma das formas de aproximação dos pares. Para promover o encontro, Santos organizava também festas e jantares.
"Comercialmente, essa proposta não se mostrou vantajosa", revela Santos. Em dois anos, modificou o foco do negócio e passou a evitar relacionar os serviços oferecidos à formação de casais. "Comecei a promover eventos para que os divorciados, que geralmente se afastam dos amigos depois de casados, formassem um novo círculo de amizades."
Hoje, mescla viagens e festas, mas enfatiza que esse é um negócio que exige alguns cuidados: "Esse cliente tem seis meses de vida útil. Depois, encontra amigos e passa a freqüentar bares e restaurantes com eles".
A Table for Six também alterou sua linha de atuação. No início, há quatro anos, promovia jantares e encontros entre seis pessoas: três homens e três mulheres.
Há dois meses, não há mais restrição à proporção entre os sexos. Elas, por serem maioria, também ganharam o "Women Only", com roteiros que vão de relaxamento em spas a visitas a casas noturnas.
Ajuda do cupido
Há quem ainda ache que a formação de casais dê bons resultados comerciais. A CSB Singles" Tours promove reuniões semanais para solteiros e divorciados. Apesar de afirmar que o intuito é apenas "fomentar amizades", o idealizador Leslie Benveniste criou o "Flecha do Cupido", um serviço de correio-elegante.
"São pessoas entre 30 e 70 anos, bem-sucedidas, mas tímidas", explica Benveniste, que tem 240 reservas para o próximo jantar.
Graduada em moda, Angela Robledo investiu em festas para solteiros durante dois anos. "Há esse tipo de evento todas as noites", afirma ao justificar o fim das atividades, em 2003. Daquela época, restaram um site e algumas camisetas com a marca. "Vamos reformular a página na internet e quero criar a grife SPO, com roupas para homens e mulheres."
Sem-filhos também tornam-se alvo
Casais com horários diferentes têm perfil parecido com o de quem vive só
Há pouco tempo, o mercado "single", que representa cerca de 10% das famílias brasileiras, começou a atrair a atenção das empresas. Eram solteiros, divorciados e viúvos que viviam sozinhos e que, segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), somavam cerca de 5 milhões de pessoas.
Indústria, varejo e setor de serviços investiram pesadamente para agradar a esse consumidor. Criaram embalagens individuais, porções menores, promoções e roteiros turísticos para o nicho. E, mesmo que não intencionalmente, acabaram acertando também o coração de um outro perfil, em especial no setor alimentício: o de casais que moram juntos, mas que têm horários diferentes.
"Como muitos não têm condições de fazer as refeições em família, optam por pratos individuais, de fácil preparo", explica o diretor comercial de mercado interno da Sadia, Gilberto Xandó.
Para conquistar os solitários e as famílias sem filhos, que juntos representam 23% da população, a empresa desenvolveu uma linha de pratos congelados, vendida em porções individuais. "Esperamos um crescimento de 6% na venda desses produtos em 2005."
A Moinhos Unidos Brasil Mate, fabricante do chá mate Real, investe há oito anos no mercado para solteiros e jovens casais. "Recebemos mensagens pelo SAC (Serviço de Atendimento ao Cliente), além de e-mails, pedindo para que fizéssemos produtos para pessoas que não têm filhos", comenta o vice-presidente da empresa, Diogo Fontana.
As mensagens deram resultado. A empresa formatou outra opção de caixas de chá. Agora oferece as tamanho-família, com 25 saquinhos, e as "single", com dez.
Além de oferecer o produto em embalagens com quantidades menores, a companhia investiu em três opções para os solteiros. "Elaboramos caixas mistas, que hoje correspondem a quase 6% do faturamento da empresa", revela Fontana.
Para ele, há mais espaço para esse tipo de produto. "Até o ano que vem, vamos lançar outros itens para atender aos solteiros."
Roupa lavada “com mimo” dá lucro
Antes da viagem, basta juntar as peças de roupa em uma mala, ainda que estejam sujas e amarrotadas. O resto -deixá-las limpas, passadas e organizadas dentro da bolsa- fica a cargo da lavanderia.
O zelo ao consumidor solteiro, descasado ou viúvo está explicado nos números. "Atualmente, o público "single" chega a 30% dos usuários de lavanderia", afirma o diretor da rede de lavanderias Qualittà, Hermínio Coimbra.
É do empresário a idéia de criar o "kit solteiro", que inclui a limpeza de roupas, lençóis, fronhas e toalhas de banho e de mesa. "É preciso oferecer pequenos mimos para fidelizar esse tipo de consumidor", explica o empresário.
Atualmente, existem cerca de 6.000 empresas do ramo atuando em todo o país. Segundo estimativas do Sindilav (Sindicato das Lavanderias e Similares do Município de São Paulo e Região), o setor deve crescer 40% em ofertas de serviços e 20% em faturamento nos próximos cinco anos.
O público de solteiros e de descasados está incluso na conta. "Estimamos um aumento de 20% desse modelo de cliente nos próximos oito anos", diz o presidente do Sindilav, José Carlos Larocca.
Ao contrário do que se pode imaginar, a explicação para a procura não está somente na praticidade e nas promoções. As tendências de consumo do vestuário também influenciam. "Atualmente, as roupas são feitas com fibras diferentes, são mais sofisticadas e exigem cuidado redobrado para a limpeza", ressalta Larocca. "Além disso, as construtoras de apartamentos vêm reduzindo o espaço da área de serviço."
Ser cupido de viajante vale a pena
Ver viajantes solitários em meio a casais com filhos e turmas de amigos deu a idéia: criar um pacote de viagens que incluísse apenas pessoas sem par entre os passageiros. Tímida, a iniciativa ganhou corpo. Atualmente, o "Just for Singles", é responsável por 80% do faturamento da Terrazul.
"Muitos casaram-se depois dos passeios", comemora a proprietária, Yolanda de Oliveira. "Quando o pacote foi criado, não esperava que houvesse tanta demanda."
Hoje com fila de espera para o próximo passeio, Oliveira conta que precisou fazer algumas adaptações nos roteiros e nas atrações para agradar ao público. "Eles exigem bons hotéis e gostam de programas com muita atividade."
Com apenas dois anos no mercado de solteiros, a Pisa Trekking planeja oferecer viagens internacionais aos grupos até o fim do ano. "Programamos um passeio para a Patagônia", diz o proprietário Maurício Lino de Almeida. O investimento, segundo ele, é uma aposta baseada no sucesso dos roteiros rodoviários. "O nicho representa 25% dos pacotes."
"Esse é um mercado muito promissor", afirma o diretor da Abav (Associação Brasileira de Agências de Viagem) Leonel Rossi. "Há bastante espaço para empresas especializadas em solteiros."
Apesar de dizer não haver segredos nesse ramo, Rossi afirma que o agente deve imergir no tema para atender ao público. "Podem-se copiar fórmulas do exterior, mas são necessários alguns ajustes para os brasileiros." E acrescenta: "Para os que já têm uma agência, é melhor abrir uma outra, focada nesse público. O consumidor tem mais confiança em alguém especializado".
Em boa companhia
Alguns segredos do ponto-de-venda para conquistar o consumidor "single":
- Estar aberto 24 horas
- Manter a linha light/ diet de produtos próxima dos similares convencionais.
- Oferecer comida pronta.
- Garantir ampla variedade de marcas.
- Organizar caixas suficientes para evitar filas.
- Investir em demonstração e degustação da maior parte dos produtos.
Reportagem: Raquel Bocato

Fonte: http://www.sebrae-sc.com.br/newart/default.asp?materia=10063

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